sexta-feira, 14 de maio de 2010

Arquitectura para leigos













Perante aquilo que os sociólogos chamam os sistemas periciais (as tecnologias que sustentam em grande medida e de maneira cada vez mais complexa e abrangente o nosso modo de vida), o homem comum sente-se cada vez mais fragilizado e impotente. Entre o desconhecimento total e a possibilidade de aceder com um simples clique a um manancial de informação impossível de digerir, o homem comum socorre-se com frequência de pequenas ferramentas de descodificação. No caso que nos preocupa, tem sido útil a consulta de publicações temáticas cuja linguagem acessível e facilidade de consulta se têm revelado particularmente eficazes. Para já, três pequenos exemplos dedicados à arquitectura vertente recuperação:
- "Reabilitação de Edifícios Antigos - Patologias e tecnologias de intervenção", de João Appleton (Edições Orion): o mais 'técnico' e esclarecedor relativamente aos principais problemas, materiais e propostas)
- "Living City - Habitar a Cidade", de José Manuel das Neves (org.) (editora Trueteam)
- "Casas Recuperadas II", de José Manuel das Neves (org.) (editora Calidoscópio)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Estatigrafias


A beleza é a intersecção possível entre uma experiência subjectiva e o referente cultural que a envolve. Daí que o olhar nunca será livre para apontar para uma parede (onde antes existia uma escada e passou a ficar uma espécie de registo estatigráfico) e dizer: que bonito! Mas que dá vontade dá...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Fachadas recriadas




Na fachada tardoz (traseira), os dois pisos superiores incluem duas pequenas varandas. Com a excepção da parte lateral esquerda, onde se acede à escada para o quintal, são plataformas provavelmente erguidas posteriormente ao edifício original (de facto são de cimento, e não de pedra). Na primeira imagem, já é possível ver o primeiro piso sem as janelas em guilhotina (irremediavelmente degradadas), que anteriormente fechavam em 'marquise' a varanda. A ideia de abrir completamente o espaço, substituindo o enquadramento em cimento pelo prolongamento do varandim em ferro, esbarrou-se com a necessidade de manter o pilar, que 'segura' a varanda do segundo piso. A segunda imagem ensaia essa hipótese (virtual), deslocando-se a coluna um pouco para a direita, para uma posição menos intromissiva. A terceira imagem é uma experiência com a aplicação das cores originais da casa, que se pretendem reproduzir: o clássico pigmento amarelo com as caixilharias em bordeaux. Bem haja, photoshop.

domingo, 9 de maio de 2010

Sala e cozinha em curso



Pormenor da intervenção na sala e cozinha: o acesso já se consegue fazer directamente do corredor de entrada, directamente por três pequenos degraus. Ao entrar, em frente haverá espaço para um louceiro. Por trás da pequena escada, um recanto na parede irá abrigar o frigorífico e o forno, permitindo ao olhar concentrar-se no restante espaço e no exterior (quintal). No piso térreo, relembre-se, estava instalada uma barbearia (o ponto comum a este tipo de casas é o facto de albergarem um negócio com entrada directa pela rua, estando reservada às traseiras a função de armazém). A adaptação a um espaço de habitação nas traseiras (para a frente está projectada uma garagem) poderá permitir algumas liberdades formais, ainda que se procure sempre respeitar o espírito da construção original. Ao fim de tanto tempo de sobrevivência, o que é uma casa senão uma sobreposição de usos e marcas do tempo?

sábado, 8 de maio de 2010

Clarabóia #2


Constatada a impossibilidade de preservar a clarabóia original, optou-se, a pretexto da renovação do telhado, por alargar a sua abertura, alimentando a iluminação a partir do centro da casa (directamente para o vão da escada). Enquanto não é terminado o revestimento exterior, um oleado protege os materiais contra o regresso da chuva. A visita acontece no dia em que o aeroporto da cidade pára por causa da nuvem de cinzas da Islândia.

O Porto ilustrado

De uma edição que remonta a 1972, trata-se da reprodução de uma gravura de Manuela Bacelar, ilustre artista da cidade cujo trabalho já fez as delícias de várias gerações de miúdos e graúdos. É uma representação pessoal, retrato mental e afectivo dos lugares de eleição da cidade. Conseguimos um exemplar directamente da autora, que ainda guarda algumas cópias assinadas. Devidamente encaixilhado, vai fazer um brilharete num lugar de destaque no seu novo lar.

"Perguntas de um trabalhador que lê"


Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilónia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.




Bertolt Brecht
Dedicado aos trabalhadores que põem a mão na massa.

Primeiros vestígios de civilização



domingo, 2 de maio de 2010

Os despojos dos dias







Exoesqueleto


Alguns organismos necessitam, para poder evoluir, de se desfazer do seu exoesqueleto e formar um novo, num processo designado por muda ou 'ecdise'. Esta capacidade tem sido considerada uma vantagem evolutiva, porque permite uma melhor adaptação ao ambiente.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Génesis


O lápis do arquitecto é como a batuta de prestidigitação: ele transforma a casa num olhar, o olhar num desenho e um desenho numa nova mesma casa. A equipa é a ferramenta humana movida a passe de magia.

domingo, 25 de abril de 2010

A Casa "Cabriolet"


Esta semana teve início a substituição do telhado. Nunca pensamos que ficaria como esses modelos dos anos 80, com barra de protecção e capota amovível. Sem esta, o melhor é acender umas velinhas pelas graças de São Pedro.

sábado, 24 de abril de 2010

Este lanço 'desiste'

Passo a passo, é como se sobem os oficiais quatro pisos. As escadas estreitam-se progressivamente. Sem o telhado, é possível fotografar em condições e para a posteridade o pequeno lanço que dava acesso ao sótão. Irá desaparecer por uma boa causa (transformar o espaço num armário, numa casa com necessidade de encaixe de arrumos), mas tinha a sua graça e a sua história e é com pena que dele nos despedimos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

+ prendinhas


A garrafa é de vidro e vai ficar perfeita na mesa em qualquer refeição.

domingo, 18 de abril de 2010

Vozes do passado


Dos baús, armários e arrecadações vão surgindo pistas avulsas, imagens ténues e indecifráveis do passado da casa e dos seus habitantes. Como esta fotografia de uma jovem em trajes e pose de comunhão religiosa, mas com sorriso de devaneio, como uma Gioconda tripeira dos tempos modernos.

Soalhos


Como previsto, as madeiras vão progressivamente sendo levantadas para posterior recolocação, recuperando o material em bom estado e completando com novo. Uma cirurgia radical (com o seu quê de delicadeza), mas fundamental para prolongar a vida da casa. No processo, surge a oportunidade única para ver através dos pisos, como super-heróis com visão raio X.

sábado, 17 de abril de 2010

Notas de rodapé

De madeira, contornam quase todas as paredes da casa, tornando as divisões mais acolhedoras e elegantes (embora alegadamente também sirvam para proteger as paredes). Mantêm-se em bom estado e vão fazer companhia às novas cores, móveis e acessórios.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tectos em trânsito


No primeiro piso, a demolição de uma das paredes revelou um espaço amplo do lado poente (ou seja, com Sol da parte da tarde). O desenho do tecto, com o seu florão descentrado e um rebordo curvado, sugere uma separação de áreas no futuro escritório-biblioteca-canto de leitura e sonecas.

Do outro lado da casa, o florão do tecto estucado foi 'descolado', recortando-se também os relevos dos ângulos (não estivemos para assistir à interessante operação). A equipa comprometeu-se a aproveitar o que se puder salvar e a reproduzir os elementos em falta, para posterior recolocação.(!) Na imagem é visível o mau estado de uma das vigas, vergada ao passar do tempo, à humidade e às leis da física.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Portadas

Abertas ou fechadas a bel prazer, abrigam do frio e do calor, isolam o som e servem de segurança. Entreabertas deixam espaço à imaginação: espreita-se para fora sem se ser visto e quem está fora inventa histórias e personagens cá dentro. São bonitas só por si e não vão a lado nenhum.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Tanque

Em tempos idos, os tanques públicos eram os lugares onde as raparigas aprendiam com as mais velhas a serem mulheres, para além de poderem por em dia as notícias das redondezas. Indispensável em qualquer lar não aderente de lavandarias-de-rua-todo-o-serviço (modalidade de resto ainda pouco ou nada implementada na baixa portuense), o tanque caseiro (bem, uma versão actualizada deste) vai-se localizar em princípio nesta mesma varanda do segundo piso, junto ao futuro quarto de hóspedes (o das traseiras). Acede-se, assim, à pragmática ideia de aproximar a lavandaria da zona onde o principal trânsito de roupas (nas suas diversas modalidades) se concretiza.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Andorinhas

Resgatada à varanda superior, a tradicional andorinha de louça aguardará em local seguro o regresso à sua função decorativa (talvez irmanada com novos exemplares, que a acompanharão com a reverência devida aos decanos, detentores da história dos lugares).

Work in progress


Bem, a partir de agora presumimos que será sempre assim: grandes mudanças a cada visita. Hoje, num glorioso dia de Primavera, todos os receios acerca da capacidade luminosa da casa se dissiparam: tudo era luz, com a ajuda das demolições entretanto concluídas. Demolições??! Calma, não se trata de destruir! (dizemos para nós mesmos) São coisas já pensadas, divisões acrescentadas à construção original, que seguramente cumpriram o seu propósito quando erguidas, mas que deixaram de fazer sentido agora, com uma nova perspectiva sobre os espaços. E de repente, ângulos inexistentes emergem, permitindo perceber finalmente as áreas e as suas funções, como um puzzle que por fim se aproxima da sua conclusão. Repare-se, tão simplesmente, na mudança operada na sala do 1º piso: onde anteriormente 3 (!) espaços existiam, descobre-se uma única secção, intervalada por um pequeno arco que se desenha, singelo mas nem por isso menos elegante.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

E aos primeiros dias...



Ao fim de uma espera ansiosa e que transformou os dias em semanas e as semanas em meses, as obras finalmente e irreversivelmente começaram. Foi estranho ver a casa subitamente a agitar-se de movimentações, como se despertasse de um longo sono, e logo para se ver em pleno cenário de operações: as paredes descarnadas, muros demolidos, tralha esvaziada do interior, novas aberturas por onde a luz por fim aprende a circular, iluminando novos recantos. Para já, a maior diferença, sobretudo para quem visitou o espaço antes dos trabalhos que agora iniciam, reside no piso térreo: a demolição do coberto que separava o interior do quintal, para onde agora, não contando com os andaimes, o pó e o entulho, se circula (alegre e) livremente.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Exemplar de incenso


Obrigado à Esteva pela dica: do emaranhado verdejante do quintal, salvamos este aromático exemplar antes da terraplanagem que se avizinhava (ver post e comentários "Os Vizinhos").

quarta-feira, 24 de março de 2010

Levantamento topográfico / Planta Piso 2


O segundo piso destina-se aos quartos. São dois, cada um com uma pequena varanda. Uma casa de banho ampla e com luz directa servirá ambos. O segundo 'corredor dos pequeninos' é neste piso e liga um dos quartos (virado a nascente, na parte inferior da imagem) à casa de banho. O quarto "de hóspedes" está virado a poente e tem como pano de fundo a Igreja da Lapa. Existe ainda actualmente um pequeno sotão sem utilização e cujo aproveitamento poderá passar por uma ligação directa com um dos quartos, para um refúgio de leitura ou domicílio de algum felino transviado, que seguramente apreciará pousar na parte mais alta da casa.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Levantamento Topográfico / Planta Piso 1


De acordo com as opiniões recolhidas até à data, trata-se do piso com maior valor arquitectónico. Assim, a ideia é manter o maior número dos elementos existentes. Os dois tectos trabalhados serão recuperados e vão ocupar o lugar central nas duas divisões do piso: a sala de estar e a biblioteca/escritório. Dois acessos ligam estas divisões. O primeiro, o patamar no final do primeiro lanço das escadas, passagem principal da casa, e o segundo, um dos corredores dos pequeninos (ver também post quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010). A partir deste piso também temos acesso ao "quintal" através de umas escadinhas de pedra.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Levantamento Topográfico / Planta Piso 0


Depois da reabilitação este espaço irá incluir a cozinha/sala de jantar da casa, uma dispensa, a casa de banho social e possivelmente a garagem. A partir deste piso também teremos acesso directo ao logradouro.
No canto inferior direito da imagem temos a entrada da casa (fachada nascente). O corredor dará acesso quer ao piso superior (através das escadas) quer à zona da cozinha e da sala de jantar. A partir da zona dos "comes e bebes", que se situa nas traseiras da casa (fachada poente), poderemos disfrutar da vista para o 'quintal' através da janela ou da porta representadas no topo superior da imagem. A dispensa e a casa de banho social serão encaixadas debaixo das escadas. A antiga barbearia, situada no canto inferior esquerdo da imagem, dará, em princípio, lugar à garagem.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Os vizinhos

Uns dias antes de se iniciarem as obras da casa na baixa avisamos os nossos futuros vizinhos que se avistavam uns meses um tanto barulhentos. A carta entregue a cada um continha os contactos do responsável da obra e os nossos contactos pessoais. O dia escolhido foi o passado Sábado, mesmo antes do almoço. Ficamos a saber, pela nossa simpática vizinha de baixo, que os donos da mercearia que fica uns números acima moram ao nosso lado. Antes da casa ser “limpa” retiramos alguns objectos que voltarão à casa aquando na nossa mudança. A planta da varanda do segundo andar foi salva (envasada num novo vaso) e aguarda impacientemente o regresso à sua casa.

Levantamento Topográfico / Alçado Principal



"Uma Casa na Baixa" - é a moradia da direita

quinta-feira, 4 de março de 2010

Azulejos e jantares


O pacote da empreitada inclui como bónus um grupo de azulejos rejeitados de outra propriedade. Como aqui na Casa na Baixa não nos fazemos rogados, a ideia é transformar o esquisito em exquisite. Os felizes contemplados com um convite para uma das soirées a promover futuramente na sala de jantar poderão apreciá-los (debaixo dos sapatos) enquanto degustam um jantar no piso térreo.