segunda-feira, 11 de abril de 2011

O antigo pós-moderno

Há quem ache discutível esta vontade de recuperar o antigo, alegando que os tempos mudam e que de qualquer das formas é impossível reproduzir o que já não existe. É uma verdade, mas parcial. Outra verdade é que este desejo de acarinhar o antigo é uma coisa recente, pós-moderna mais do que moderna (se na modernidade o que se quis foi construir contra o passado, em grande escala, como se o planeta inteiro se pudesse transformar numa enorme indústria, organizada segundo as regras da economia e da matemática). Felizmente existe já uma massa crítica que não se coloca à margem da discussão mas que coloca a tónica na necessidade de regressar a uma vivência à escala humana. Nesse novo mundo (que é admirável sem ser monocromático), elementos da pré-modernidade, da modernidade e da pós-modernidade coabitam numa harmonia que não é uma ideia universal, antes a vontade de se identificar com um espaço, feito à medida dos seus habitantes.

domingo, 27 de março de 2011

Cadeirão

Dizem que só encontramos aquilo que queremos quando não estamos à procura. É válido para o amor, e é válido para encontrar peças como esta, que se encontram a preços muito em conta deambulando sem destino pelas ruas da invicta, assim como quem quer apenas esquecer-se das agruras laborais.

sábado, 26 de março de 2011

Casa verde

E como nestas coisas quanto mais cedo se começar melhor, frequentámos hoje uma das acções de formação da LIPOR sobre compostagem caseira. Para além de muitas informações úteis, foi bom perceber que é perfeitamente viável, economicamente lógico e ambientalmente urgente tomar uma iniciativa. Aproximadamente 40% do lixo que geralmente se classifica como indiferenciado pode ser transformado em composto orgânico, útil para adubar terrenos ornamentais ou horticulturas. A iniciativa, apoiada por fundos europeus, disponibiliza gratuitamente, para além da formação, compostores de tamanho suficiente para pequenos quintais ou jardins urbanos e um pequeno recipiente para os resíduos de cozinha. Mais informações aqui.

domingo, 20 de março de 2011

Pedra à vista

O valor de uma intervenção também se mede pelo preciosismo dos seus detalhes. Maioritariamente, não é possível avaliar o tempo investido em pormenores que se fundem depois no todo, contribuindo para uma boa impressão geral, mas que passam despercebidos à maior parte dos olhares. Será o caso desta secção em pedra, que estava revestida com várias gerações de tintas e que teve que ser limpa manualmente, poro a poro, com uma paciência digna de Job. Com a excepção de pormenores do exterior, foi a única secção onde se optou por apresentar pedra à vista (por se tratarem também das lajes maiores, como era típico nesta secção ).

quinta-feira, 17 de março de 2011

Comer, cozinhar

Projecto para a cozinha, que partilha o mesmo espaço com a sala de jantar. O facto de não existir aqui uma estrutura prévia permitiu pensar numa intervenção mais moderna, como contraponto à recuperação mais tradicional da casa restante. Foi uma sugestão bem acolhida pelos futuros residentes, por parecer condensar melhor a necessidade de criar uma área simultaneamente prática (porque cozinhar é uma actividade rotineira e suja) mas também elegante e convidativa (porque cozinhar também é um pouco criar, sair da rotina e, cada vez mais, um acto gregário, eminentemente social).

domingo, 13 de março de 2011

Projecto para armário

Nas relações parece haver sempre um parceiro recolector e outro de perfil mais 'utilitarista'. O primeiro diverte-se a acumular peças com funções variadas, e não lhe passa pela cabeça desfazer-se delas depois de ultrapassada a validade. O segundo sonha com um mundo mais organizado, pragmático e 'limpo' e, como tal, não perde oportunidade para se desfazer do que já não tem uso aparente. Posto isto, e não obstante, numa casa nova há que partir do nobre princípio da igualdade de oportunidades para todos (exemplificado no desenho simétrico do armário de quarto).

terça-feira, 8 de março de 2011

A luz entra...

... e despede-se ao fim do dia no ponto mais alto da casa, para deixar ver o efeito dos cuidados prestados ao soalho nos últimos dias. Um trabalho feito por homens, já não como na bela pintura de Caillebotte, mas com a ajuda preciosa de máquinas de vários portes. Quanto às mulheres, no seu dia e não só, serão sempre tão bem vindas como eles neste pavimento. "Les raboteurs de parquet", de Gustave Caillebotte (1875)

sexta-feira, 4 de março de 2011

É entrar, senhorias...

Era uma porta antiga, muito velhinha, que não podia sair do seu posto de comando. Longe iam os seus dias de glória, e entristecendo julgava-se condenada. Um dia vieram uns senhores, que enternecidos se compadeceram do seu destino e que, com desvelo e mil cuidados, sem a retirar do sítio, foram tapando buraco aqui, substituindo madeira ali, lixando, afagando e untando com massas. Dia para dia parecia mais próxima do esplendor original. Sabia que em breve cumpriria de novo a função há muito descurada: a de dar as boas vindas aos visitantes e a de guardar numa bonita caixinha notícias dos que tinham partido.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Desenhar para uma cidade

Só quando precisamos de partilhar o que é viver numa cidade é que percebemos quão subjectiva é essa experiência. A perspectiva muda consoante a nossa idade, as fases em que nos apanham ou simplesmente porque a própria natureza do burgo sofre mutações. Penso que é comum 'colarmos' o nosso estado de espírito ao que nos rodeia: quando estamos deprimidos e melancólicos, o Porto é uma cidade cinzenta, chuvosa e provinciana; se estamos apaixonados, tudo é cor, animação e património. Nessa partilha, nem sempre o verbo é o veículo mais claro. Foi o que percebeu desde sempre a Manuela Bacelar, ilustradora da invicta, que juntou os seus desenhos aos textos do Carlos Tê (outro ilustre tripeiro) no imperdível "Cimo de Vila". Para nós é assim como uma espécie de visão animada de uma antiga ilustração já aqui convocada.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pequenas notas burocráticas

A alteração de qualquer elemento estrutural de uma casa, incluindo, na fachada, a mudança de cor carece de um pedido de licenciamento. Uma vez que a intervenção até à data constitui uma recuperação do edifício original, apenas foi necessário um aviso prévio de obra à câmara, que implica a fiscalização da obra para aferir a conformidade ao registo predial existente. O aviso possibilita o acesso a políticas de incentivo à recuperação na denominada ZIP (Zona de Intervenção Prioritária da baixa), incluindo isenções do IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) e do IMT (Imposto Municipal de Transacções).
Até agora, apenas a parte relativa ao saneamento implicou um pedido de licenciamento junto da empresa municipal Águas do Porto (o que pode também protelar outras intervenções).
O projecto da casa prevê ainda a adaptação para garagem da antiga loja existente no piso térreo, o que implicará a remoção de um pilar e subsequente montagem de uma porta de largura equivalente às duas antigas entradas (que correspondem também a dois números na rua). Essa intervenção carece de um pedido de licenciamento específico que será submetido a seu tempo.
Entretanto, advogados, um número difícil de estimar de funcionários públicos e vários cidadãos convocados a dar o seu testemunho gastam tempo precioso de vida e dinheiro público para deliberar sobre o papel de duas chapas de zinco enferrujado e amolgado num canto de um logradouro devoluto.
Enquanto o monstro burocrático engole as democracias no mundo ocidental, deglutindo pelo caminho a voz do cidadão, a obra desacelera a caminho do primeiro aniversário.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pezinhos de lã

O processo de afagamento dos soalhos foi iniciado. Como de costume, começaram pelo piso superior e foi-nos pedido para, no caso de querermos ver o trabalho (ainda sem a última camada de verniz), entrarmos com o cuidado que o título do post exprime tão bem.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pêras rochas e profundos carmesins

A cor é uma ficção gerada pela luz sobre a matéria. A sua leitura varia de acordo com a infinitude de possibilidades criadas pelo cruzamento entre essas duas variáveis (a que se junta, ainda, a competência da fonte ocular). Resultado? Após uma demão, a primeira opção para uma fachada (no cartão horizontal) pode revelar-se flagrantemente desajustada. Felizmente, a maleabilidade do julgamento humano é (quase) tão diversificada como a paleta de tonalidades da CIN, pelo que, após uma pequena tertúlia cromática, a decisão recaiu sobre o discreto mas distinto 'pêra rocha' (no cartão vertical), que vai casar muito bem, esperamos, com o tom mais 'afirmativo' das madeiras e do varandim.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Bidé

Invenção francesa do século XVII, aparentemente devemos a sua existência ao pedido de uma rainha, que clamava por um dispositivo que permitindo manter a higiene das partes íntimas, se adaptasse harmoniosamente às curvas do seu corpo régio. Com muitas variações, chegou aos nossos dias em diferentes formatos e com hidráulicas variáveis. Este é um dos modelos clássicos, que adorna desde esta semana uma das casas de banho.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A história das coisas

Um objecto pode conter toda a história do mundo: onde e de que forma se descobriram e fabricaram as suas matérias, como se chegou à depuração dos seus motivos, qual a economia de transacções que o trouxe de um lado para outro do planeta, e ainda, a sua finalidade, inaugurada ao primeiro uso. Tome-se este tapete, excepção à política de contenção que tentamos sem sucesso aplicar face à expectativa da mudança: que mãos dedicadas, curtidas pelo Sol e pelo vida num país do Médio Oriente, poderiam adivinhar que o seu destino seria o quarto de dois ganapos numa casa antiga deste velho ancoradouro do norte de Portugal?

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A propósito de portas e fechaduras

I.
Eu nunca gostei de portas, sempre as vi como
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.


in
"Erros Individuais", de José Miguel Silva

Espelhos

Outro belo trabalho de marcenaria, já aplicado em todas as fechaduras. Ainda a definir: pintar da cor das portas ou simplesmente envernizar e manter. Bitaites?

Chapa ondulada

Pormenores da chapa ondulada, antes e depois de pintadas. O efeito é quente, permitindo equilibrar a paleta de toda a fachada, particularmente no revestimento do pequeno 'torreão' que se destaca no segundo piso.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mezzanine #2

Aspecto geral da 'mezzanine', para onde se sobe com o auxílio de uma delicada escada da obra e cuja função ainda está por decidir. Talvez o tempo e a vivência nos indiquem um caminho. Inclui-se a vista da pequena janela, onde se tem a única perspectiva do telhado em 'telha francesa'.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Verde Bernini

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mais portadas

Ainda não foi referido mas a fachada tardoz não possuia portadas. Devido à esposição solar poente (muito sol, pelo menos durante alguns meses do ano) e também a questões de segurança fizeram-se réplicas das portadas existentes na fachada principal.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Simbiose

Em biologia a simbiose é uma relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos. Aqui o caso é um pouco diferente, mas não temos dúvida que a cozinha/sala de refeições vai tirar proveito deste bonito conjunto de azulejos. Por sua vez, os azulejos colocados vão assim manter-se intactos (estiveram guardados em caixas desde a sua rejeição) e exercer a sua função por muitos anos.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Redondezas/dintorni/surroundings/environs

Pequenas grandes surpresas

Podemos utilizar a imaginação e fantasiar; podemos até socorrer-nos da segurança infalível dos cálculos matemáticos e projectar. Mas nunca, nem nos sonhos mais livres nem no pensamento mais racionalista, poderemos adivinhar a forma como uma peça encaixa de forma tão perfeita e tão bela no seu lugar. Ei-la, depois de um pequeno debate que chegou a questionar a sua existência, com a sua própria identidade e a querer contentar a gregos e a troianos, a porta de acesso interior.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Porta inútil

Desta perspectiva percebe-se a vontade que espíritos mais pragmáticos (como o do engenheiro ou do empreiteiro da obra) tinham em eliminar esta parede, abrindo a divisão directamente para o vão da escada, ou simplesmente fazendo-a recuar para alinhar com a parede da esquerda. É verdade que se ganhava espaço, mas o que se perdia do desenho original da casa nunca o justificaria. E que é uma bela porta inútil, é.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Experiências

Hoje tratou-se da disposição dos azulejos hidráulicos, cortesia do arquitecto, no chão do piso térreo. Sendo um conjunto limitado, optou-se por fazer um 'tapete' na zona da cozinha (só se utilizou o rebordo, mas há unidades para toda a área). A colocação está prevista para esta semana, assim como a execução do pavimento neste piso, o mais 'atrasado' no cenário da obra.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pequenas coisas com importância

Ao retirar uma parede, a transição de um tecto liso e rebaixado (por necessidade de encaixe de tubagens) com um tecto mais trabalhado e desnivelado tornou-se problemática, especialmente na junção com esta janela. Após várias tentativas, a harmonização parece conseguida, para o que contribuiu o toque especial do 'encaixe' e do friso adicional na base.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Atelier

O que distingue um operário de um artesão e de um artista? A olho nú, nada.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Antes e um depois provisório

Pormenores de interior e exterior da lavandaria. O tempo são estas paredes teimosas, permanentes na sua inconstância.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Escadas pintadas

Se pudéssemos pegar numa máquina do tempo, apontá-la para este ângulo e acelerá-la, para trás e para a frente, poderíamos ver, como pequenos flashes em fotografias nocturnas, a imagem de personagens a subir e a descer estas escadas, assumindo diferentes papeis, em trajes de época (roupas de trabalho, trajes menores ou sem trajes de todo). Uma mãe que leva o seu bebé para o quarto, um operário enrolado numa toalha de banho, um homem a saltar degraus apressado para um encontro amoroso, uma criança encostada aos balaústres com uma boneca debaixo do braço, alguém que desce langorosamente em pose de diva e diz: “All right Mr DeMille, I’m ready for my close up”...

(and, for our foreign visitors)
Painted Stairs
If only we had a time machine, point it at this angle and speed it up, back and forth, we could see, just like those little flashes in night shots, the image of different characters going up and down these stairs, playing all kind of roles in costume (work clothes, underwear or no costumes at all). A mother who brings her baby into the bedroom, a worker wrapped in a bath towel, another man jumping steps to find a lover, a child leaning against the banisters with a doll under his arm, someone who falls into a languorous diva pose and says: "All right Mr. DeMille, I'm ready for my closeup"...

Do nascer ao por do Sol

Com uma posição nascente do lado do quarto principal, o Sol vai-se encarregar diariamente de espreitar por estas janelas e, esperamos, tirar-nos da cama. Pela varanda vamos poder avaliar o movimento na rua, do café à mercearia, passando pelo barbeiro, a farmácia e as famílias de gatos vadios a espreitar por baixo dos automóveis as gamelas de restos deixadas por almas caridosas na noite anterior.