terça-feira, 10 de agosto de 2010

Ciência do wc

Na esfera da intimidade, as maiores mudanças trazidas pela modernidade deram-se na esfera da higiene pessoal. Tal é visível no próprio espaço reservado há apenas um século atrás para as abluções e outras necessidades fisiológicas: ou era inexistente, ou remetido para um pequeno anexo exterior. Hoje, o peso da imagem, dos cuidados pessoais e das balizas de pudor reflecte-se numa expansão dos espaços consagrados. Nesta casa, o número e tipo de divisões foram objecto de discussão prolongada, tendo-se chegado à seguinte aritmética: uma casa de banho, com duche e banheira, no segundo piso, junto aos dois quartos; uma segunda, de serviço, no piso térreo, junto à cozinha e sala de jantar; no piso intermédio, um anexo exterior foi também preparado com uma pré-instalação (inicialmente pensava-se neste espaço como de arrumos, mas a lógica de prevenção e valorização do imóvel prevaleceu). As louças também já foram escolhidas. Ao lado, com direito a projecção virtual, o lavatório do segundo piso.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pedras preciosas

Ainda não a tínhamos visto e já a adorávamos como uma preciosa descoberta arqueológica: escondido debaixo de madeira e linóleo, é o primeiro degrau da entrada, que afinal é de pedra (puída pelo tempo, como acontece com as coisas que o tempo usa).

Por cima, fica o arco de acesso à casa, onde regressará uma porta que outrora terá existido, separando física e simbolicamente o espaço público do privado.

Um forte na baixa

domingo, 8 de agosto de 2010

Cachorros


Como acontece com o melhor amigo do Homem, em arquitectura os cachorros, também conhecidos por mísulas, podem ser de diversas formas e tamanhos. São elementos que se encontram expostos e servem para suportar varandas e beirais.

sábado, 7 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Debaixo de um tecto

Para que o céu não nos caísse em cima da cabeça, receio herdado de uma pequena aldeia de irredutíveis gauleses, já tínhamos a garantia de um tecto sólido. Agora o sono vai ser ainda mais sossegado, com um tecto que inclui, para além da placa de pladour, um isolante térmico, ambos suportados pela singela estrutura metálica como a que se vê na foto.

domingo, 1 de agosto de 2010

Plásticas de gesso

É isto (auch!) que resta do outro tecto com gesso trabalhado. Os empurrões e as vibrações sofridas acabaram por se fazer sentir, e a opção teve que ser tomada: retirar o florão para restauro posterior de todo o tecto. Fica registado agora, já que temos o condão de esquecer as decisões que, como cirurgias adiadas ad aeternum, possuem uma inevitabilidade que pesa nas consciências menos cautelosas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Soalhos em progresso

Divisões transformadas em autênticas oficinas de serração e tábuas de madeira empilhada só podiam significar uma coisa: o chão ia regressar à casa, o que, depois de meses de equilibrismo sobre vigas e destroços, significava um descanso para os mais achacados às sensações vertiginosas e para as adeptas do tacão alto. Infelizmente, as madeiras originais revelaram-se irrecuperáveis. Foi necessário substitui-las com a tradicional madeira de pinho. Aqui fica uma amostra de um soalho colocado no segundo piso que prenuncia já um belo efeito cenográfico final.

Pequenos grandes detalhes

Enquanto o Verão insiste em presentear-nos com temperaturas extremas, as visitas às obras vão revelando um desenvolvimento progressivo, a bom ritmo. Há trabalhos invisíveis, como o das marcenarias, que estão a ser trabalhadas fora do local; outros de pequeno impacto visual mas de grande benefício futuro (canalizações, tubagens, fios e quejandos). Finalmente há os de execução rápida mas de grande efeito, como o reboco de paredes exteriores ou o início da aplicação dos soalhos de madeira. Ficam para já dois exemplos do trabalho na parede lateral, junto à escadaria de acesso ao quintal.

sábado, 24 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Bomba-coração (encore une maison equipée)


O sistema de aquecimento em muito se assemelha à circulação humana. Existe a pequena circulação, que serve para obter o calor (oxigénio no caso do Homem), enquanto tubos vermelhos e azuis desenham a grande circulação que o distribui. Depois há uma máquina, que assegura que tudo isto aconteça sem falhas e no tempo certo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

14ª janela

Parece uma moldura à espera de recheio. Nasceu no segundo piso e é uma janela interior, virada para o vão da escada. Para lá transita uma das caixilharias exteriores, que assim começa uma segunda vida, de acordo com o muito estimável princípio da reciclagem de materiais.

sábado, 17 de julho de 2010

Modelo 43


Primeira ronda para escolher materiais para casas de banho. Numa economia de mercado ocidental de século XXI, ainda que de segunda ou terceira linha, isso significa tempo substancial investido a avaliar miríades de possibilidades. Apesar disso, o valioso filtro do arquitecto permitiu avançar várias etapas. Numa tarde foram escolhidos azulejos, louças e torneiras. Para a casa de banho do segundo piso, que vai assumir uma aparência mais clássica (contemporânea da casa), a opção recaiu num lambrim de azulejo verde claro rematado a meio da parede por uma tira de azulejo preto. Daí para cima, uma parede branca, comme il faut.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Bomba de calor e radiadores



Quem tenha estado a seguir a evolução de uma casa na baixa já deve ter reparado que está cheia de canos e tubos. O conjunto dos tubos azuis e vermelhos correspondem à ligação do reservatório da bomba de calor (com capacidade para 300 litros) aos radiadores. O sistema escolhido foi o Pack Inverter Spydro da AJTech, que corresponde a uma bomba de calor (ar/água) de alta temperatura hidráulica. A opção deve-se à possibilidade de ligação paralela a painéis solares, cuja pré-instalação já foi assegurada (encontra-se em fase de estudo). Os radiadores que nos irão aquecer nas noites frias de inverno são do modelo Strada da Jaga. Recorrem a uma tecnologia low-water que resulta em elevados valores de emissão, diminuindo assim o dispêndio de energia.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Electric dreams #2


Poucos dias depois da visita anterior, o terreno já se encontra preparado para receber a dádiva de Thomas Edison à civilização moderna: a electricidade. E com ela, qual criação de Frankenstein de novo milénio, por entre cabos, tomadas e interruptores, animando máquinas, equipamentos e tecnologias, se trará nova luz e vida a uma casa na baixa.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Caixilharia

Devido ao avançado grau de degradação das portadas e janelas da casa e tendo em conta a necessidade de isolamento térmico e acústico toda a caixilharia exterior será substituída, mantendo o desenho original e com a instalação de vidros duplos. Tacula (Pterocarpus soyauxii) foi a madeira escolhida, dada a sua grande durabilidade, impregnabilidade média e grande resistência a fungos e bicharada (xilófagos, tecnicamente). Trata-se de uma árvore originária da África central e tropical, que chega a atingir 30 metros de altura. Para além da madeira, outras partes são utilizadas: enquanto que as folhas são ricas em vitamina C, podendo ser utilizadas na alimentação, extractos da sua casca são utilizados para o tratamento de infecções por fungos e para a eliminação de parasitas cutâneos. Devido à sua capacidade de ressonância também é muito utilizada em instrumentos de percurssão e de cordas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Tubos

A preencher os roços, encontrámos estes tubos, que viajam pela casa sempre aos pares. Transportam dentro algo em que não apetece muito pensar neste período de canícula intensa - o aquecimento central - mas os residentes e visitantes vão agradecer este privilégio quando o Inverno tripeiro chegar.

The thin red line

De regresso após um interregno no sul da península itálica, onde se pôde apreciar o património arquitectónico e urbanístico de Nápoles (a cidade onde o passado mais convive com o presente, em sucessivas camadas verticais de História), a vontade de espreitar as novidades na casa era grande. Uma delas foi esta linha vermelha, desenhada aparentemente com exactidão em todas as divisões à mesma distância do chão e cujo significado ainda está sob escrutínio. Na linguagem bélica, a 'thin red line' representa a capacidade de uma força militar exígua resistir ao ataque de forças desmesuradamente maiores.

PS: entretanto o arquitecto confirma que a função da linha é a de nivelar em cada piso todas as intervenções abaixo, até ao soalho, e acima, até ao tecto, corrigindo ou prevenindo eventuais desnivelamentos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Interregno

Segue-se um intervalo para umas merecidas férias. As obras, contudo, prosseguem, pelo que contamos ter novidades para registar no regresso. Até lá, bom São João!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Roços

Dos grafittis com as marcações das futuras ligações eléctricas resultaram estes 'rasgões', (roços, tecnicamente), onde se encaixarão os cabos necessários. Depois de levantado o soalho, o telhado, picadas as paredes, aberta uma vala, tiradas as portas e caixilharias das janelas, ver estes maus tratos ao pouco que resta da casa é, no mínimo, doloroso, ainda que incontornável.

domingo, 20 de junho de 2010

Canalizações



Durante eras, a falta de uma política estruturada de saneamento básico constituiu a principal causa de doenças e epidemias entre a população residente nos núcleos urbanos. Continua a sê-lo, em muitas zonas do planeta. Felizmente, entre nós, trata-se de um dado adquirido, embora se ouçam ainda com frequência queixas da factura que todos, como cidadãos, temos a obrigação de pagar. Dentro de portas, o processo é relativamente simples, mas laborioso: depois de aberta uma vala, atravessando toda a casa até à caixa de saneamento, foram já colocados os tubos de canalização, substituindo-se o material pré-existente por um mais resistente. As ligações deverão percorrer assim o quintal, a cozinha, a casa de banho do piso térreo e duas ligações nos pisos superiores.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Uma rua na baixa

Numa rua mal afamada, não há como ver as coisas com olhos de ver. E descobrir, então, que como animais sociais, somos muito achacados aos mitos urbanos, ou por acreditarmos neles, ou por os reproduzirmos, ou por os inventarmos e recriarmos. Alguns dos mitos mais enraizados na história recente da cidade do Porto são os da insegurança e da indigência. Ninguém poderá negar, obviamente, que existem pólos de criminalidade, essencialmente ligados a fenómenos de toxicodependência. Mas partir daí para demonizar toda a baixa é algo que, no mínimo, revela ignorância e pouca vontade para combater preconceitos. É certo que o Porto, como muitas outras cidades, sempre teve o seu lado bas fond, em grande medida fruto da actividade conhecida como a mais velha profissão do mundo, muitas vezes também próximo de expedientes hoje em dia conhecidos como 'economia paralela' ou 'informal' e frequentemente palco de um alcoolismo endémico, estrutural e cultural. Mas existe sempre um outro lado (muitas vezes no mesmo local, em horas diferentes): o do pequeno comércio, dos serviços, da sociabilidade, da vizinhança, das festas populares, da restauração, dos miúdos a brincar, das senhoras a dar à letra, de um germe de cosmopolitismo e da história continuamente recriada, feita pelos habitantes e transeuntes destas artérias graníticas e seculares. Nada nem ninguém poderá silenciar isso. Certo?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

De marquise a varanda

Virada para poente, no primeiro piso, optou-se por transformar a antiga marquise numa varanda, prolongando o gradeamento de ferro que contorna as escadas de acesso ao quintal. É uma forma de criar maior abertura para o exterior, permitindo uma maior entrada de luz para a divisão que será o escritório e sala de leitura. Pelo que se consegue perceber, a plataforma foi construída posteriormente à casa original, uma vez que assenta numa estrutura de cimento. Foram retiradas as caixilharias e demolido o pequeno muro. Por razões estéticas e funcionais optou-se por construir um novo pilar, alinhado com o 'cachorro' (aquele gancho de pedra que se vê na parte inferior). O pilar original será eliminado, mas mantém-se desta forma um suporte para a varanda do segundo piso.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Rebuliço

É uma trincheira! É um buraco negro! É o apocalipse! É... a vala do saneamento!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Electric dreams

Louceiro


Não há maneira da foto fazer justiça a este louceiro, que logo que possível se instalará na sala de jantar. Até lá vai aguardar quedo no antiquário onde foi descoberto. É uma peça feita em vinhático, que data do século XIX. É mais antiga do que a própria casa, possuindo o carisma necessário para ocupar um lugar de destaque e servir dois propósitos muito pragmáticos: arrumar louça e consolar as vistas.

domingo, 6 de junho de 2010

Beiral

Ao elegante beiral foi acrescentado um reforço de madeira, por trás do qual já espreita a telha (pena que não se consiga obter uma perspectiva do telhado concluído; talvez um dia, ao visitar a casa do vizinho da frente). Só falta a caleira, para desviar a conhecida pluviosidade tripeira. Entretanto, chegámos ao mês de Junho, o dos santos populares e da canícula. A cidade muda de estação e a casa na baixa acelera a sua transformação.

sábado, 5 de junho de 2010

Casa oportunista

Como frequentemente acontecia no burgo tripeiro, a casa foi oportunisticamente erguida no lote deixado vago entre outras duas casas. Por esse motivo, não foram erguidas novas paredes, pelo que a pedra que se consegue ver na imagem é partilhada com o vizinho. Também é possível vislumbrar a geometria enviesada do travejamento, que acompanha o ângulo 'torcido' em relação à rua. Às vigas foram adicionados reforços com madeira nova. Num dos pisos descobriu-se que aquilo que aparentava ser um pequeno deslizamento do edifício, 'quebrando' a esquadria das portas interiores, não seria senão a consequência de um planeamento pouco científico de toda a estrutura (mercê talvez dos meios ao dispor dos mestres na altura).

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Arrumos de exterior

No exterior, dois espaços com destino já ponderado: à direita (mais próxima da casa e sob a protecção da varanda do piso superior), uma área para arrumos, destino das inúmeras e imprevisíveis quantidades de objectos que uma vida consegue coleccionar (entre eles, imaginamos acessórios para o quintal: mesas, cadeiras, guarda-sol, pás, tesouras de poda, etc); à esquerda, mais afastado do edifício, a área onde poderá ser encaixado o mecanismo para o sistema de aquecimento, tenha ele que configuração tiver (trata-se de um dossiê ainda em estudo, agora que se descobriu que é tecnicamente inviável incluir nos tectos as caixas de ar do sistema de bombas de calor).

terça-feira, 1 de junho de 2010

Parede sim, parede não

Era uma vez, no espaço onde se instalará o futuro escritório, uma parede em 'bico' resultante do alargamento de uma casa de banho, cuja entrada se fazia pela marquise. Estando já planeada uma casa de banho de serviço no piso térreo e outra para os quartos no segundo piso, parecia excessivo instalar uma terceira numa casa para apenas duas pessoas. Assim, disse-se: "abaixo com a parede, para se conquistar espaço útil!" (assim se fez, respeitando o que era o traçado original). A pequena divisão com entrada pela varanda (antiga marquise) será contudo igualmente equipada com pré-instalação de canalizações (não vá o diabo tecê-las, nestas coisas deve entrar o seu quê de racionalidade económica a longo prazo). Sobrou um buraco na parede interior, que rapidamente se entaipou com uma instalação semelhante às esculturas do Pedro Cabrita Reis. Faz também lembrar um pouco um processo de regeneração de tecidos, como uma ferida cicatrizada.